
No artigo desta semana, o bispo da Diocese de Osório, dom Jaime Pedro Kohl, propõe uma reflexão profunda sobre o chamado de Jesus aos primeiros discípulos e o significado atual da expressão “pescadores de homens”. A partir de imagens simples do cotidiano da pesca e de memórias pessoais, o texto conduz os leitores a compreenderem o discipulado como mudança de vida e compromisso com o projeto do Reino de Deus.
Inspirado no Evangelho, o bispo recorda que Jesus chamou pescadores e, por isso, utilizou uma linguagem próxima da realidade deles para indicar uma nova missão. Deixar as redes e os barcos significou assumir a tarefa de dar continuidade à obra do Mestre, anunciando a luz que vence as trevas e oferecendo salvação a toda a humanidade, conforme a profecia de Isaías.
O artigo mostra que ser “pescador de homens” não significa proselitismo, mas promoção da dignidade humana e humanização das relações. Trata-se de testemunhar, com palavras e atitudes, que um mundo novo é possível quando homens e mulheres se reconhecem irmãos e irmãs em Jesus Cristo.
Leia o artigo na íntegra:
Todos pescadores de homens
Quando falamos em pescador, o que aparece no nosso imaginário é alguém de caniço na mão, perto de um rio, junto a um açude ou à beira-mar. Todos nós temos nossas experiências e lembranças de pescas bem-sucedidas.
Pessoalmente, lembro-me de meu pai. Quando pequeno, fazia quilômetros para pescar com ele. Como era gostoso! Nos últimos anos, ele passava tardes inteiras pescando em um açude que ele mesmo fez, perto de casa. E era bonito ver sua alegria quando pegava um peixe grande.
Sempre que ouvimos a palavra “pescar”, logo pensamos: “pescar peixes”. Ninguém vai dizer: vamos pescar homens. No entanto, Jesus, ao chamar as duas primeiras duplas de discípulos que eram pescadores, disse a Simão e André: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. O mesmo aconteceu com Tiago e João, que deixaram tudo e o seguiram.
Vejamos de entender um pouco essa forma de falar do Evangelho. Se Jesus tivesse chamado um cultivador de bananas ou um plantador de arroz, certamente teria usado outra comparação. Mas, como chamou pescadores, usa essa linguagem, significando a mudança de vida que lhes é exigida a partir do discipulado. Sua ocupação principal agora é outra: dar continuidade ao projeto de vida do Mestre Jesus.
O projeto do Mestre é realizar a profecia de Isaías: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz”. Equivale dizer: oferecer a salvação a toda a humanidade.
Na concepção da época, as águas profundas comunicavam-se com a mansão dos mortos, debaixo da terra. Pescar significava tirar do poder da morte, e este estava relacionado com o poder de Herodes, que mandou matar João Batista por um motivo fútil e muito mundano. Seu convite era simples: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”.
O resultado é que agora os chamados deixam seus barcos para seguir Jesus. Todos serão pescadores, todos terão a missão de tirar a humanidade do reino da morte. Os irmãos de sangue agora se tornam irmãos de fé e de missão.
Deixo que cada um tire suas conclusões, mas uma coisa é certa e vale para todos os cristãos: todos, enquanto discípulos de Jesus, temos a missão de ajudar as pessoas no processo de libertação das forças da morte e de entrarem no caminho da vida, do amor e da paz que somente Ele pode oferecer.
Portanto, “pescar homens” não significa proselitismo, mas promoção da pessoa humana, humanização das relações. Acreditamos que um outro mundo é possível, um mundo onde homens e mulheres se reconhecem como irmãos e irmãs em Jesus Cristo.
Dom Jaime Pedro Kohl, bispo Diocesano
Fonte: ASCOM da Diocese de Osório / Melissa Maciel
