A noite da última sexta-feira, 10 de abril, marcou mais do que a entrega de um projeto, simbolizou a devolução da memória ao seu povo. Em cerimônia realizada na Cúria Diocesana, em Osório, a Diocese inaugurou oficialmente o acervo documental histórico, resultado de um processo técnico e institucional que mobilizou esforços ao longo de três anos e consolidou um dos mais relevantes patrimônios documentais da região.

O ato solene reuniu autoridades civis, eclesiásticas, representantes de instituições culturais, patrocinadores e profissionais envolvidos na restauração. Em tom reflexivo, o cerimonial conduziu os participantes a compreender que o momento transcendia a entrega física de livros restaurados. Tratava-se da preservação da identidade de uma região inteira. “Celebramos a continuidade da nossa história, a identidade de um povo”, destacado durante a cerimônia.
O acervo reúne cerca de 800 volumes manuscritos e revelou, no dia da inauguração, a existência de um registro ainda mais antigo do que o inicialmente divulgado: um livro da Paróquia de Santo Antônio da Patrulha, datado de 1761, período em que a Igreja Católica era responsável pelos registros oficiais da população. Com livros de batismos, matrimônios e óbitos que atravessam séculos, o conjunto preserva não apenas dados, mas trajetórias familiares, a formação das comunidades e a própria estrutura social da região.
O PAPEL DA IGREJA
Durante a cerimônia, o chanceler da Diocese, padre Laudemir Demarchi, contextualizou o papel histórico da Igreja na organização documental da sociedade. Em uma abordagem que dialoga com o tempo contemporâneo, destacou a relação entre o acervo físico e o ambiente digital. “Vivemos no tempo da tecnologia, daquilo que se convencionou chamar de ‘nuvem’. A nuvem conserva informação. O livro conserva a memória”, afirmou reforçando que a digitalização amplia o acesso, mas não substitui o valor histórico do documento original.
O momento também foi marcado pela bênção do acervo, em um rito que atribuiu dimensão simbólica e espiritual ao projeto. Na oração, conduzida pelo bispo diocesano, dom Jaime Pedro Kohl, foi ressaltado o caráter universal dos documentos, que conectam o Litoral Norte ao mundo por meio das origens familiares. “Que este acervo histórico-cultural sirva para partilhar conhecimentos, estreitar laços e tornar conscientes as pessoas de suas origens”, destacou o bispo.
Dom Jaime Pedro definiu a entrega como uma conquista coletiva. “É uma vitória. Um patrimônio que estava deteriorado e que não podia se perder. Hoje, ele passa a estar acessível, preservado para a posteridade”, afirmou, ao lembrar o esforço de articulação e captação de recursos via Lei de Incentivo à Cultura do RS.
A relevância institucional do projeto também foi destacada pela diretora de Artes e Economia Criativa da Secretaria de Estado da Cultura, Adriana Sperandir, que acompanhou a iniciativa desde sua concepção. Segundo ela, trata-se de um “projeto sólido de resgate da memória”, alinhado ao propósito das políticas públicas de cultura, com impacto direto na preservação histórica e no desenvolvimento regional.
Representando o poder público municipal, o prefeito de Osório, Romildo Bolzan Júnior, enfatizou o valor histórico do acervo, que reúne documentos datados ainda do período anterior à elevação da localidade à condição de freguesia, em 1773. Para ele, trata-se de um patrimônio “de valor inestimável”, testemunho direto da formação da cidade e da região.
Já entre os patrocinadores, a participação da iniciativa privada foi apresentada como fundamental. A empresária Adélia Formagio, do Frigorífico Borrússia, destacou o caráter coletivo do investimento. “Estamos contribuindo para manter um patrimônio que é uma riqueza para muitas gerações”, afirmou, reforçando o papel das empresas na sustentação de projetos culturais de longo prazo.
ACESSO AO ACERVO

O acesso ao acervo documental da Diocese de Osório será realizado em dois formatos complementares, o físico e online, com diretrizes claras voltadas à preservação do patrimônio histórico.
No formato presencial, o acesso será restrito. Devido à fragilidade dos documentos, muitos deles com mais de dois séculos, o manuseio direto dos livros físicos não será permitido ao público em geral. A consulta ocorrerá prioritariamente por meio de uma sala de pesquisa instalada na sede da Diocese, onde os usuários terão acesso ao conteúdo digitalizado em sistema interno, mediante agendamento.
O acesso aos documentos originais será excepcional, limitado a situações específicas e sempre sob análise prévia da Diocese. Nesses casos, o manuseio será realizado exclusivamente por profissionais da secretaria da Cúria, devidamente treinados e equipados, seguindo rigorosos protocolos de conservação.
Já o acesso online será o principal meio de consulta ao acervo. O site oficial está em fase final de desenvolvimento, com previsão de liberação das pesquisas a partir de maio de 2026. A plataforma reunirá informações institucionais sobre o acervo e o processo de restauração, além de disponibilizar, em formato PDF para visualização, os documentos digitalizados até 1930. A iniciativa amplia o acesso público sem comprometer a integridade do material físico.
Para aqueles que optarem por não realizar a pesquisa diretamente no site, a Cúria oferecerá o serviço de busca mediante solicitação por e-mail, pelo endereço mitra@diocesedeosorio.org. Nesses casos, poderá haver cobrança de taxa pelo serviço de pesquisa. Caso o documento seja localizado e haja interesse na emissão, serão aplicados os valores definidos pelo Regional Sul 3 da CNBB.
Atualmente, cerca de 200 pessoas integram uma lista de espera formada ao longo do período de restauração. Conforme a secretária da Cúria, Lohana Motta, todos os contatos serão acionados assim que a plataforma digital estiver disponível. A demanda concentra-se, sobretudo, em processos de cidadania, pesquisas genealógicas e, mais recentemente, trabalhos acadêmicos.
Com estrutura adequada, climatização e controle de luminosidade, o acervo passa a operar dentro de padrões técnicos que garantem sua preservação a longo prazo, ao mesmo tempo em que estabelece um novo modelo de acesso à memória regional.
O projeto é uma realização da Diocese de Osório através do financiamento do Sistema Pró-Cultura, LIC/RS, com elaboração e gestão da Lahtu Sensu Administração Cultural e patrocínio das empresas Frigorífico Borrússia, Água Mineral Santo Anjo, Madesa, Supermercados Dalpiaz, Arrozagro, Expresso São José, Pabovi, Freepet, Realengo, Frigodal e DaColônia.








TEXTO E FOTOS: Melissa Maciel, ASCOM da Diocese de Osório
