
No artigo “Todos têm direito a uma tenda/casa”, o bispo da Diocese de Osório, Dom Jaime Pedro Kohl, parte da liturgia do segundo domingo da Quaresma e da Transfiguração de Jesus para propor uma reflexão que une espiritualidade e compromisso social. Ao recordar o episódio narrado no Evangelho de Evangelho de Mateus, o bispo evidencia que subir ao monte com Cristo é abrir o horizonte da fé para compreender melhor os desafios concretos da realidade.
A partir dessa experiência, o texto associa a vivência quaresmal e a Campanha da Fraternidade ao dever cristão de enxergar o sofrimento dos que não têm moradia digna. Dom Jaime destaca que fixar o olhar no Senhor implica reconhecer os pobres e excluídos, entre eles os sem-teto, reafirmando que todos têm direito a sonhar com uma casa que respeite sua dignidade humana.
Leia o artigo na íntegra e aprofunde-se na reflexão proposta por Dom Jaime:
Todos têm direito a uma tenda/casa
No segundo domingo da Quaresma, a liturgia nos convida a refletir sobre a Transfiguração de Jesus. Tal foi o encantamento de Pedro que se oferece para construir três tendas/casas para imortalizar aquela experiência da glória de Cristo.
Essa experiência pode ser vista como resposta do Senhor a uma falta de compreensão manifestada pelos discípulos. Pouco antes, registrara-se uma verdadeira divergência entre o Mestre e Pedro. Pedro começara professando sua fé em Jesus, mas, em seguida, rejeitara o anúncio da paixão. A censura de Jesus foi forte: «Afasta-te, satanás! Tu és para Mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens» (Mt 16,23).
Talvez por isso, «seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os a um alto monte» (Mt 17,1). No alto da montanha, o horizonte se abriu e nasceu a esperança que o leva a confiar no Senhor.
Quando a visão é míope, bom seria deixarmo-nos conduzir ao alto da montanha para ver a realidade concreta da falta de moradia digna para muitos e vislumbrar soluções possíveis, deixando-nos guiar pelo Espírito de Deus.
Quaresma é tempo de deixar Jesus manifestar a sua glória, para, quando descermos ao chão concreto do cotidiano, termos luzes e forças para vencermos o tédio, vivermos com serenidade e vigor nossa fé, aceitando a cruz do seguimento e os desafios da realidade.
A ascese quaresmal bem vivida ajuda a superar a falta de fé e as resistências em seguir Jesus pelo caminho da cruz e da solidariedade.
Para aprofundar nosso conhecimento do Mestre, para acolher o mistério da salvação divina, é preciso deixarmo-nos conduzir por Ele à montanha, rompendo com a mediocridade. É preciso pôr-se a caminho. A CF é uma forma concreta de pôr-nos a caminho.
“Fixar o olhar no Senhor não afasta os dramas da história, mas abre os olhos para reconhecer o sofrimento que nos rodeia e nos atravessa… No coração de Deus ocupam lugar preferencial os pobres, os marginalizados e excluídos, e, por isso, também no coração da Igreja. Neles a comunidade cristã encontra o rosto e a carne de Cristo, que, de rico que era, se fez pobre por nós” (TB 17).
Entre esses pobres que precisam ser vistos e aproximados estão os sem-teto, os condenados a viver em barracos inadequados. Eles têm direito de sonhar com uma tenda/casa digna de seres humanos e experimentar a presença de Cristo com toda a sua beleza confortadora.
Dom Jaime Pedro Kohl – Bispo de Osório
Fonte: Ascom Diocese de Osório / Melissa Maciel
